Sábado, 24 de Junho de 2006

NÃO SOMOS MENOS DO QUE OS MAIS

                                

É verdade meus amigos, nós não somos menos do que os mais, estamos fartos de ser um pequeno país periférico, estamos fartos de apontar o dedo para o país X e para o país  Y porque estão no grupo dos mais e nós estamos sempre no grupo dos menos. Agora também já temos um serial killer para mostrar ao mundo que não pode continuar a ridicularizar-nos com o epíteto menorista de país de brandos costumes.O nosso serial killer , suspeito de ter assassinado pelo menos três jovens (pensa-se que o número poderá aumentar), deixou em estado de choque a população local por se tratar de um homem cordato, simpático, afável, bom vizinho, bom amigo, elemento activo da junta de freguesia, sempre pronto a ajudar até mesmo no combate aos incêndios que todos os anos devastam o país. As estações televisivas apressam-se a entrevistar psicólogos para que possamos compreender como é possível que um homem com aquele perfil tenha podido cometer tais atrocidades. Ontem na SIC Notícias, o jornalista dizia ao psicólogo: " Trata-se de um GNR na reserva, acha que esse facto o poderá ter levado a agir desta forma?". O psicólogo não disse que sim nem que não, mas que talvez, visto que as mudanças nos modos de vida por vezes também produzem alterações comportamentais etc. etc. e mais uma série de tretas que se o caso não fosse sério até dava para rir. O homem reformou-se e o trauma foi tão grande que desatou a matar raparigas. Aqui está um bom argumento a favor do aumento da idade da reforma, agora é que eu compreendo por que razão o Governo só quer trabalhadores reformados quando já estão em estado terminal. É tudo para bem da comunidade. Tão ou mais ridículas são as entrevistas à população : "Então diga-me lá, minha senhora, ficou muito chocada?". A pergunta é estúpida, mas a resposta não é melhor:"Fiquei, claro que fiquei, porque podia ter acontecido o mesmo comigo". Moral da história - não fora o facto de se pôr a hipótese de ter tido o mesmo destino das infelizes jovens, já a mulher não ficaria chocada. Aliás este tipo de resposta é muito vulgar entre nós e, em casos recentes de crianças mortas, vítimas de maus tratos, quando se juntam magotes de homens e mulheres às portas dos tribunais, lá vem a pergunta sacramental do(a) repórter de serviço: " A senhora está aqui por quê?". Invariavelmente, a mulher responde: "Porque estou muito revoltada, visto que também sou mãe e não gostaria que fizessem o mesmo ao meu filho". Há lá resposta mais absurda? Será que a revolta pelas sevícias infligidas a uma criança é apanágio das mães e só lhes provoca revolta na medida em que a situação também poderia afectar os seus próprios filhos? Será por isso que há tanta criança maltratada, a cujos gritos os vizinhos fazem orelhas moucas, e só quando a criança aparece a boiar no rio ou no meio de uma lixeira, a populaça corre para as portas dos tribunais berrando impropérios contra os torturadores? Será esta a forma que utilizam para aliviarem a consciência e sacudirem a sua quota-parte de responsabilidade? Felizmente há excepções e conheço casos em que as situações têm sido denunciadas, mas também não são raros os casos em que, consumados os crimes, vemos os ecrãs dos nossos televisores conspurcados com as imagens dos inefáveis responsáveis da segurança social, sacudindo a água do capote, sempre com a mesma desculpa: "Nada fazia prever tal desfecho, os(as) nossos funcionários visitavam regularmente a família e nunca viram nada que indiciasse que a criança era vítima de maus-tratos". Se calhar, perante uma criança cheia de equimoses, é mais prático acreditar que a criança anda sempre a dar trambolhões que é a desculpa que os pais utilizam vulgarmente. Com a sensação do dever cumprido o(a) funcionário regressa ao seu gabinete, põe os telefonemas em dia, e garatuja um pequeno relatório informando que aquela família, antes referenciada como desestruturada, está em vias de estruturação e, embora ainda se verifique alguma falta de higiene, não há factos que justifiquem a retirada da criança aos pais biológicos. Como diria Mestre Pangloss: "Tudo vai bem no melhor dos mundos" (Cândido de Voltaire - aconselho a leitura embora não tenha nada a ver com o tema deste post). 

sinto-me: acutilante
publicado por mmfmatos às 15:52
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10 comentários:
De padeiradealjubarrota a 25 de Junho de 2006 às 01:03
Isto está mesmo de pantanas.Os assasinos, os pedófilos e tudo o mais, têm sempre uma desculpa!
São doentes, têm traumas, estão reformados...e isso dá-lhes direito a serem montros e criminosos.Quanto à imprensa, nunca desceu tão baixo e tece perguntas de uma crassa estupidez, só para encher chouriços!
De padeiradealubarrota a 25 de Junho de 2006 às 01:05
errata: assassinos...monstros
De Kruzes Kanhoto a 25 de Junho de 2006 às 09:27
Nós, os portugueses,temos sempre de arranjar uma desculpa....Obrigado pela visita e comentário.
De lique a 25 de Junho de 2006 às 14:48
Ficamos sempre com a sensaação de que ninguem tem responsabilidade neste tipo de horrores. Mas a desresponsabilização é, mesmo, uma das nossas mais graves características.
Beijos
De touaqui a 25 de Junho de 2006 às 22:56
Só quando algo se dá se tranca a porta , mais , se a miuda tinha fugido a primeira vez e na segunda desapareceu , alguém teve a coragem de participar o desaparecimento da mesma , pensando que tinha ido para a França , ai a familia teve a culpa dos acontecimentos pois deu azo a que os desaparecimentos de dessem e ninguém se mexesse , hoje sabe-se , julgo eu , como as coisas se passaram mas entretanto chovem as criticas ao assassinio esquecendo-se de que os desaparecimentos podiam talvez serem evitádos se ouvesse uma informação condigna das familias , o que não ouve , mas enfim , o assassinio apareceu apareceu os corpos e tudo numa situação critica para as familias , lamentável mas não sei o que deu neste país????.
De José S. a 26 de Junho de 2006 às 08:17
Bom, em primeiro lugar (estimo a sua saúde. Até parecem as cartas da minha avó eheheh ) acho o artigo espectacular. Anda por aí muito jornalista a fazer perguntas estúpidas que bem podia pôr os olhos nalguns blogs (este, por exemplo) que ia aprender muita coisa. Segundo: Acho que não haverá grandes diferenças – a não ser as culturais – entre um português, um americano ou seja de que raça for. O ser humano é um animal igual aos outros com a desvantagem – quanto a mim – de ter desenvolvido raciocínio. Muito do que nas outras espécies é instintivo, nos humanos tornou-se racional e de vez em quando saem estas irracionalidades. Acho o nosso cérebro muito complicado e é nas máquinas mais complicadas que se dão as grandes avarias, por isso era essencial uma manutenção mais cuidada, tanto da saúde mental das pessoas como a nível da vigilância das vítimas. Vivemos num mundo de loucura e, embora eu também seja daqueles que numa primeira reacção, só me apetecia estrafegar um gajo destes, pensando bem pergunto-me se não será este Mundo em que vivemos que está a pôr tudo louco. São sete horas da manhã e ainda não consegui dormir e duvido que vá conseguir fazê-lo com o trânsito infernal a passar-me à porta e as intermináveis obras numa rotunda começada há cinco anos. Por isso se um dia ouvires a notícia de um tipo que violou e estripou um gajo das obras numa rotunda dos arredores de Lisboa, não te admires se for eu. E agora vou-me embora por uns dias. Um abraço.
De js a 26 de Junho de 2006 às 14:20
..num mundo cada vez mais violento ... estamo a começar a dar cartas ... violência na escola, violência nas ruas, violência doméstica... estamos no bom caminho... por este andar ainda podemos aspirar a que Portugal ataque Espanha ou declare guerra aos Estados Unidos da América...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt
De js a 26 de Junho de 2006 às 14:21
..num mundo cada vez mais violento ... estamo a começar a dar cartas ... violência na escola, violência nas ruas, violência doméstica... estamos no bom caminho... por este andar ainda podemos aspirar a que Portugal ataque Espanha ou declare guerra aos Estados Unidos da América...
FORÇ'AÍ!
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De js a 26 de Junho de 2006 às 14:21
..num mundo cada vez mais violento ... estamo a começar a dar cartas ... violência na escola, violência nas ruas, violência doméstica... estamos no bom caminho... por este andar ainda podemos aspirar a que Portugal ataque Espanha ou declare guerra aos Estados Unidos da América...
FORÇ'AÍ!
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De padeirinha a 11 de Julho de 2006 às 11:00
Alô...Alô...por onde andamos? Já de férias?...

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